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Minha mãe dizia e eu achava chato

Aí você chega em casa morta de cansaço, mas tem o jantar para fazer. Oh my God! Quero um banho quente e me jogar na cama. Até o seriado de TV que você gosta de assistir às quintas-feiras não parece nada tentador. Você só quer dormir.

Conversa um pouco com o marido, conta do dia, as novidades, acerta alguns detalhes para o dia seguinte. Cria coragem e pede a ele para ir jantar na mãe, pois prefere dormir com fome essa noite a ter que fazer o jantar. Ele fala que tudo bem e você já fica mais aliviada.

Come qualquer coisa que está na geladeira e vai para o tão esperado banho quente. Relaxa. Sente o cheirinho bom do sabonete. Deixa a água bem quente (coitada da pele). Massageia a perna que está doendo. Escova o dente e põe o pijama.

“Caminha linda e deliciosa pensei tanto em você durante o meu dia e principalmente na reunião de duas horas que não terminava nunca depois do almoço! Huuummmm, travesseiro macio. Agora é só capotar e aproveitar a uma horinha a mais de sono que vou ter. Amanhã vou passar o dia super bem”.

23h26 – “Já separei a roupinha pra ele levar para a avó. Amanhã tenho que pegar o carro bem cedo. Preciso resolver o problema do cartão e pagar aquela conta. Ligar para a fisioterapeuta e…….Xiuuuuuuu…vai dormir, Beatriz”.

Silêncio.   O o   o   o   o    o   .

23h33 – “Ai não posso esquecer de passar na farmácia e comprar as minhas vitaminas. Faz tempo que não ligo pro meu pai. Saudade dele. Ai esqueci de colocar a roupa na máquina…Xiiiuuuuuuuuu, Beatriz vai dormir!”

Silêncio. O o   o   o   o    o   .

23h37 – Abro o olho e me reviro na cama. “Marido tá demorando pra voltar com o filho. Caramba meu pé tá ficando frio e eu esqueci de pegar a meia. Ixi, que barulho foi esse? Estranho. Parecia algo caindo…Hum, acho que não era aqui. Como é estranho morar em apartamento porque …Xiuuuuuuu, vai dormir!!!!!”

Silêncio. O o   o   o   o    o   .

23h41 – Olho no relógio e vejo que já vai dar meia noite. Bufo pensando que minha uma hora a mais de sono se foi. Saco! Insônia? Não acredito. Passei o dia andando como um zumbi e agora nada? Hunf.

Marido chega com o filho. Poe no berço e te dá beijo de boa noite.

Silêncio. O o   o   o   o    o   .

PI PI PI PI PI PI PI PI ………………..

07h00 – Mas já?

Bem que minha mãe dizia que só conseguia dormir depois que as filhas chegavam em casa. E eu achava chato.

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Pedro o companheiro

Oi filho! Essa semana está sendo tão corrida. Estou chegando em casa todo dia depois das 21h. O lado bom é que está sendo uma semana muito produtiva pra mim, embora esteja muito cansada. Ontem a noite me senti culpada por estar passando menos tempo (do já escasso) com você. Porém, me dei uma bronca e disse a mim mesma que resolvendo as questões estou, de certa forma, também beneficiando você.

Não vejo a hora de chegar o fim de semana para ficarmos juntos. Sinto saudade de você. Sinto falta de sentir seu cheiro. Sinto por não ver instantaneamente as coisas novas que você aprende todos os dias. O bom é que quando chego em casa ainda te pego acordado e embalamos uma conversa em português e bebenês. Te coloco na cama e falamos sobre o seu dia. Tão fofinho você agitando as perninhas e os bracinhos enquanto conversa!

Faz um tempo já que tenho observado que você é um grande companheiro! Um grande (de 61 cm rsrsrs) e um bom companheiro. Quando estou com você em casa parecesse que você preenche tudo, mas acho que é mesmo o meu coração! Outro dia você dormiu na sua avó e eu e seu pai ficamos perdidos sem você. Acha que dormimos até mais tarde? Nada. O sono passou. A casa estava silenciosa demais. Achamos até estranho sermos só nós dois de volta como na época do namoro. Senti que faltava algo. E eu achando que nunca sentiria isso…

Adoro ficar deitada com você fazendo preguiça na cama, vê-lo mamando, te ensinar a pegar os brinquedos, ver sua cara de curioso ao ficar de barriga para baixo. Faço cócegas para ouvir seus gritinhos. Dou beijos barulhentos na sua bochecha. Seguro na sua mão depois que adormece. Mordo seu pé. Dou beijo de esquimó. Faço danças malucas para te ver sorrindo. Te coloco “ao meu lado” enquanto cozinho e as vezes prefere isso a ficar na sala vendo desenho…

São tantas coisas, filho. Coisas que só um companheirinho de 61 cm pode me propocionar! Te amo.

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A última batatinha do saco! Sobre conquistas e orgulho de mim mesma

Pedro, hoje a mamãe está muito feliz! Eu voltei a dirigir!!! Parece uma bobagem para muita gente que vê nisso a mais automática e banal atividade que um ser humano pode realizar. Não pra mim filho. Alguns não entendem o meu entusiasmo por pegar o carro e sair por aí me aventurando entre motos, caminhões e ônibus.

Há uns três anos mais ou menos eu não dirigia de fato, não pegava o carro e enfrentava o trânsito dessa cidade caótica em que moramos. Habilitação na carteira e não era motorista. O motivo da minha desistência na verdade não é um, mas um conjunto. Medo é o principal eu acho. Não é medo de sofrer acidente. É um medo de estragar algo que não é meu (não tenho carro próprio) e de ter alguém sentado ao lado te criticando porque acha que deve andar mais rápido, ou mais devagar, frear perto, frear longe, meter o carro em cima e forçar a entrada…chato tudo isso. Desestimulante.

Mas, dirigir significa ter um pouco mais de conforto, ter liberdade e facilidade para ir aonde queremos. Agora com a sua chegada, filho, significa ainda mais: não deixar você pegar vento e chuva. Eu diria mais. Significa não depender exclusivamente de alguém para poder te levar ao médico, para tomar vacina ou te levar para a vovó. Assim também deixamos de incomodar a rotina dos outros e estamos mais precavidos para casos de emergência.

Tem mais: os passeios! A partir de agora poderemos sair, ir no mercado quando quiser fazer um jantar diferente pro papai, dar uma volta no parque, no shopping, no zoológico, encontrar as amigas da mamãe que ainda não te conhecem pessoalmente como a tia Meg, tia Bete, tia Fran, ir ao vovô… Um monte de coisas que vamos descobrir juntos!

Pensei em voltar a dirigir muitas vezes: dias de chuva, dias de sol, dias de ônibus lotado, dias com vontade de passear. Nenhuma foi suficiente. Aí veio você. E agora eu preciso, eu quero, eu voltei!

Fico pensando…quando ler esse post, já um meninão,vai ficar surpreso por descobrir que a mamãe não dirigia. Algo que farei tão automaticamente.

Tô orgulhosa de mim mesma. Fim.

Ps: Quero deixar registrado que hoje está chovendo então o trânsito está ainda pior aqui em SP. Engarrafamento, vidros embaçados, retrovisor com gotinhas de chuva que atrapalham a visão. Isso merece um bônus, não?!  Merece sim. Parabéns pra mim. Rsrsrs

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A rotina do hospital e as amigas que ganhei

Pedro, já contei aqui que a maioria das coisas que planejei para a sua vinda não deu certo. Ainda é um pouco dolorido administrar tudo isso porque a mamãe tem a mania de criar expectativas e se alimenta de sentimentos intensos. Eu ainda preciso me conscientizar que realidade não é novela. Mas, teimo em viver de forma a criar momentos especiais porque a vida por si não é leve filho.

Foi tudo muito rápido entre o dia em que passei mal, me internei e você nasceu. De um dia para o outro mais precisamente. Dor fortíssima do lado direito da barriga. Calafrios que me faziam tremer inteira. Consulta com a obstetra. Ida para o hospital. Internação. Soro com remédio para inibir as contrações. Vários exames de imagem (até uma ressonância magnética). Noite. Durmo. Dia. Levanto para fazer xixi. Bolsa estoura. Passam-se cinco horas. Centro cirúrgico. Você nasce!

No meio da correria, o seu choro. Meu choro. Início do nosso aprendizado. Foram 90 e poucos dias de internação e não houve um só dia em que não estive ao seu lado (mentira teve um. Quando eu e o papai estávamos preparando o apartamento para você! rs). Eram jornadas de 12 horas normalmente, tirava leite a cada 3 horas, esperava para fazer o Método Canguru com você, conversava com os médicos, olhava seu prontuário, acompanhava cada passagem plantão, fazia carinho, esperava por boas notícias. Tive muito medo das intercorrências. Chorei de cansaço e de saudade.

Mas, não tiveram só coisas ruins nesse tempo filho. Conheci pessoas muito legais e casos emocionantes de luta e superação. Com humor (sim, ainda sobrou algo dele no nosso íntimo) criamos uma relação interessante entre mães e a apelidamos de “Rádio Leite”. Os encontros rápidos na sala de ordenha (é isso mesmo. Igual a da vaca. A finalidade também) eram aproveitados para desabafar, para trocar informações, para vibrar com as conquistas dos bebês.

Incrível como nessa relação não havia julgamentos. Sério, filho, acho que foi a única vez na vida que presenciei o altruísmo. Uma amparava a outra, confortava, dava dicas, transmitia força e não questionava a fragilidade. Porque lá entendia-se que há dias bons e dias ruins. ESTÁVAMOS frágeis, não SOMOS fracas. Entende a diferença?

A elas minha eterna gratidão. Carla e Leo; Pilar, Valetina e Manuela; Maiza e Valentina; Gercilene, Bruno e Caio; Sheila, Thales e Laura; Angélica, José e Antonio; Michelle e Melissa; Loraine, Mariana e Julia; Andréia e Alan; Fernanda e Miguel; Ana Paula e João Vitor; Elisabete, Marina, Laura e Estela; Adriana e Maria; Daniela e Beatriz; Vanessa e Rafael; Bruna e Julia.

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Simpatia

Pedro, levantamos bem cedo nesta segunda-feira nublada, fria e molhada. Eu e o papai te levamos na neuropediatra. Nome complicado né? É uma médica que entende da cabeça da gente, do funcionamento dela.

No caminho até o consultório você foi distribuindo sorrisos aos que passavam e recebendo elogios de volta. Me impressiono em ver como você é simpático com todos e como todos te devolvem carinho. Mais uma vez se impressionaram com o fato de ter nascido com 25 semanas de gestação. “Nossa, só 25? Que pequenininho”; “Que apressado”.

Na sala de espera mais olhares para você e mais sorrisinhos. Chegada a nossa vez entro com você no colo, respondo algumas perguntas e te coloco na maca para a médica examinar. Tiram a sua roupinha (ai que dó tá friiiioo) e fazem testes nas suas perninhas, joelhos e pés.

A médica fala comigo sobre a sua espasticidade de membros inferiores, mas eu só consigo prestar atenção na sua cara de sapeca, no quanto você está agitado e balbuciando animadamente enquanto olha tudo ao seu redor. Você se mexe tanto que a médica precisa te aparar toda hora para que você não role da maca.

Entram algumas residentes (estudantes) e todas fazem aquele coro “Aiii que ‘bunitiiinho’”. Uma comentou da sua bochecha. Outra falou da sua esperteza. E uma delas falou “Como ele é simpático”. Todas ficaram olhando a médica terminar de te examinar e sorrindo pra você. Olhei pro seu pai e ele estava com uma cara de risinho também. Acho que estava pensando em como você está sapeca e como já faz sucesso com a mulherada! rs

Você sorri bastante. De manhã então…você é o Miss Simpatia. Você não acorda chorando. Quando te pego no berço você abre um sorrisão banguela e agita as perninhas e bracinhos. Tipo “Bom dia mamãe! Me pega daqui que eu quero começar meu dia”.

Sua alegria contagia, filho. E hoje você parecia um pontinho brilhante no meio daquela gente toda. Era eu passar com você que todo mundo mexia, comentava. Fiquei toda babona vendo como você se tornou um bebê feliz apesar do que passou na UTI. Seu sorriso alegra meu dia, sabia?! Até essa segundona nublada e fria.

Tem coisa mais valiosa que saúde e alegria de filho? Eu desconheço.

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Sobre futilidades e aprendizados

Filho, eu estaria mentindo para você se dissesse que a sua chegada na minha vida foi tranqüila. Foi difícil para mim.  Foi difícil porque o que é desconhecido sempre nos assusta, nos deixa aflitos e alertas.

Passei um tempo me questionando se seria uma boa mãe para você, se daria conta da responsabilidade que é ajudar um ser humano a crescer. Eu tinha 25 anos quando fiquei grávida. Para algumas pessoas isso é pouca idade. Para outras a quantidade de anos não é indicador de mãe boa ou ruim.

Em partes é verdade, filho. Mas, a maternidade nos exige muitas coisas que talvez alguns anos a mais teriam nos permitido uma chegada mais tranqüila, com mais conforto para você e para mim. Uma casa própria, menos correria, menos julgamentos?!

Depois do primeiro susto (e muitas lágrimas de medo e alegria) eu quis curtir a gravidez e fiquei planejando seu chá de fraldas, a decoração do seu quarto e as lembrancinhas que daria aos que nos visitassem na maternidade. Mas, não deu tempo de fazer nada disso porque você se apressou e chegou aos seis meses de gestação! (Aliás, saiba que você nasceu no dia em que tinham preparado um chá de fraldas surpresa no meu trabalho!)

No começo eu fiquei triste por não ter conseguido vivenciar situações que muitas mulheres sonham desde menina. Coisas simples como visita dos amigos, vídeo e fotos do parto, amigos olhando o bebê no berçário, enfeite de porta de maternidade, lembrancinhas do seu nascimento etc etc etc.

No tempo em que ficamos no hospital passei centenas de vezes pelas portas dos quartos cheias de enfeites e flores e de onde ecoavam risadas alegres de quem está conhecendo uma nova vida. No começo me feria porque jamais viveria aquilo. Mas, quando te vi com a vida por um fio pude compreender que, o que antes me causava tristeza, não passava de futilidade.

Não me importava mais o chá de fraldas desde que você engordasse 30 gramas por dia.

Não me importava mais seu quarto sem decoração fofinha desde que você ficasse acordado um pouco durante o dia e me olhasse lá de dentro da incubadora.

Não me importava mais as lembrancinhas desde que você aceitasse mais leite.

E assim foi dia após dia.

Com o seu nascimento eu comecei a ver o mundo, e as pessoas, com mais ternura e encantamento. Depois de você eu aprendi a não ficar chateada por coisas idiotas e ter mais humildade para entender que ninguém tem controle total sobre a vida. Ter você me fez uma pessoa melhor, mais amável.

Obrigada, filho.

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A primeira vez que te vi. A primeira vez que te toquei.

Só quando eu subi do centro cirúrgico pude te ver pela primeira vez, filho. Foi por foto. Foi a sua madrinha, irmã da mamãe, que me mostrou você. Não sei como ela fez, mas conseguiu entrar na UTI para poder tirar uma foto e te mostrar para a mamãe.

Confesso que olhei, mas não consegui me expressar. Fiquei muda. Olhei você e senti medo de perder você. Lembro de dizer pra sua tia “Se ele morrer nunca mais vou ser feliz”. Lembro também de entrar no banheiro e chorar abafado pra ninguém ouvir, mas por dentro eu gritava “Deus! Por que? Eu não fiz mal pra ninguém. Por que você está me fazendo passar por isso?”.

Eu gritei com Deus, filho…

Depois de dormir algumas horas e esperar o efeito da anestesia passar fui ver você. Papai me colocou na cadeira de rodas e subimos até a UTI.  Pela primeira vez entrei naquele lugar onde entraria centenas de vezes por mais de 90 dias. Era quente, tava escuro (diminuem as luzes a noite) e tinha um cheiro específico.

Dezenas de incubadoras. Centenas de aparelhos barulhentos e muitos bebezinhos como você. Com a ajuda do papai me levantei e andei até a sua incubadora. Curvada com dor nos pontos e puxando o soro me apoiei na sua “casa” e olhei.

Fiquei sem respirar quando vi você, Pedro. Tão pequeno. Fiquei chocada. Seus braços e pernas eram tão finos. Tantos fios e aparelhos ligados em você. Nas telas vários números.

Chorei. Chorei incontrolavelmente apoiada na sua incubadora. Seu pai achou que eu não fosse agüentar e tentou me levar de volta para a cadeira de rodas. Não quis. Eu só queria ficar ali e terminar de chorar. Sua fralda era uma tamanho RN cortada no meio e com fita crepe para fazer o acabamento e não deixar o algodão vazar.

Lembro de uma técnica de enfermagem (que te acompanhou até o fim) me dizer para por a mão em você. “Não!!!”…eu não consegui. Demorou filho para eu conseguir tocar em você. Tinha medo de te machucar ou de te passar alguma bactéria.

Mas, o dia chegou. Eu descansei minha mão sobre as suas costas. Senti você quentinho, pele muito fina, macio. Então, tive a noção de como você era pequeno porque a minha mão (que não é nada grande) quase cobria todo o seu tórax e abdômen.

Eu senti você. Senti o maior amor da vida, filho.

Depois fiz uma das coisas que eu mais amo até hoje: peguei na sua mãozinha! Que linda. Era tão pequena e perfeita. Fiquei olhando cada dedinho, as micro unhas, tudo. Seu pai registrou o momento. Olha só!

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