1

Minha mãe dizia e eu achava chato

Aí você chega em casa morta de cansaço, mas tem o jantar para fazer. Oh my God! Quero um banho quente e me jogar na cama. Até o seriado de TV que você gosta de assistir às quintas-feiras não parece nada tentador. Você só quer dormir.

Conversa um pouco com o marido, conta do dia, as novidades, acerta alguns detalhes para o dia seguinte. Cria coragem e pede a ele para ir jantar na mãe, pois prefere dormir com fome essa noite a ter que fazer o jantar. Ele fala que tudo bem e você já fica mais aliviada.

Come qualquer coisa que está na geladeira e vai para o tão esperado banho quente. Relaxa. Sente o cheirinho bom do sabonete. Deixa a água bem quente (coitada da pele). Massageia a perna que está doendo. Escova o dente e põe o pijama.

“Caminha linda e deliciosa pensei tanto em você durante o meu dia e principalmente na reunião de duas horas que não terminava nunca depois do almoço! Huuummmm, travesseiro macio. Agora é só capotar e aproveitar a uma horinha a mais de sono que vou ter. Amanhã vou passar o dia super bem”.

23h26 – “Já separei a roupinha pra ele levar para a avó. Amanhã tenho que pegar o carro bem cedo. Preciso resolver o problema do cartão e pagar aquela conta. Ligar para a fisioterapeuta e…….Xiuuuuuuu…vai dormir, Beatriz”.

Silêncio.   O o   o   o   o    o   .

23h33 – “Ai não posso esquecer de passar na farmácia e comprar as minhas vitaminas. Faz tempo que não ligo pro meu pai. Saudade dele. Ai esqueci de colocar a roupa na máquina…Xiiiuuuuuuuuu, Beatriz vai dormir!”

Silêncio. O o   o   o   o    o   .

23h37 – Abro o olho e me reviro na cama. “Marido tá demorando pra voltar com o filho. Caramba meu pé tá ficando frio e eu esqueci de pegar a meia. Ixi, que barulho foi esse? Estranho. Parecia algo caindo…Hum, acho que não era aqui. Como é estranho morar em apartamento porque …Xiuuuuuuu, vai dormir!!!!!”

Silêncio. O o   o   o   o    o   .

23h41 – Olho no relógio e vejo que já vai dar meia noite. Bufo pensando que minha uma hora a mais de sono se foi. Saco! Insônia? Não acredito. Passei o dia andando como um zumbi e agora nada? Hunf.

Marido chega com o filho. Poe no berço e te dá beijo de boa noite.

Silêncio. O o   o   o   o    o   .

PI PI PI PI PI PI PI PI ………………..

07h00 – Mas já?

Bem que minha mãe dizia que só conseguia dormir depois que as filhas chegavam em casa. E eu achava chato.

1

Pedro o companheiro

Oi filho! Essa semana está sendo tão corrida. Estou chegando em casa todo dia depois das 21h. O lado bom é que está sendo uma semana muito produtiva pra mim, embora esteja muito cansada. Ontem a noite me senti culpada por estar passando menos tempo (do já escasso) com você. Porém, me dei uma bronca e disse a mim mesma que resolvendo as questões estou, de certa forma, também beneficiando você.

Não vejo a hora de chegar o fim de semana para ficarmos juntos. Sinto saudade de você. Sinto falta de sentir seu cheiro. Sinto por não ver instantaneamente as coisas novas que você aprende todos os dias. O bom é que quando chego em casa ainda te pego acordado e embalamos uma conversa em português e bebenês. Te coloco na cama e falamos sobre o seu dia. Tão fofinho você agitando as perninhas e os bracinhos enquanto conversa!

Faz um tempo já que tenho observado que você é um grande companheiro! Um grande (de 61 cm rsrsrs) e um bom companheiro. Quando estou com você em casa parecesse que você preenche tudo, mas acho que é mesmo o meu coração! Outro dia você dormiu na sua avó e eu e seu pai ficamos perdidos sem você. Acha que dormimos até mais tarde? Nada. O sono passou. A casa estava silenciosa demais. Achamos até estranho sermos só nós dois de volta como na época do namoro. Senti que faltava algo. E eu achando que nunca sentiria isso…

Adoro ficar deitada com você fazendo preguiça na cama, vê-lo mamando, te ensinar a pegar os brinquedos, ver sua cara de curioso ao ficar de barriga para baixo. Faço cócegas para ouvir seus gritinhos. Dou beijos barulhentos na sua bochecha. Seguro na sua mão depois que adormece. Mordo seu pé. Dou beijo de esquimó. Faço danças malucas para te ver sorrindo. Te coloco “ao meu lado” enquanto cozinho e as vezes prefere isso a ficar na sala vendo desenho…

São tantas coisas, filho. Coisas que só um companheirinho de 61 cm pode me propocionar! Te amo.

2

A última batatinha do saco! Sobre conquistas e orgulho de mim mesma

Pedro, hoje a mamãe está muito feliz! Eu voltei a dirigir!!! Parece uma bobagem para muita gente que vê nisso a mais automática e banal atividade que um ser humano pode realizar. Não pra mim filho. Alguns não entendem o meu entusiasmo por pegar o carro e sair por aí me aventurando entre motos, caminhões e ônibus.

Há uns três anos mais ou menos eu não dirigia de fato, não pegava o carro e enfrentava o trânsito dessa cidade caótica em que moramos. Habilitação na carteira e não era motorista. O motivo da minha desistência na verdade não é um, mas um conjunto. Medo é o principal eu acho. Não é medo de sofrer acidente. É um medo de estragar algo que não é meu (não tenho carro próprio) e de ter alguém sentado ao lado te criticando porque acha que deve andar mais rápido, ou mais devagar, frear perto, frear longe, meter o carro em cima e forçar a entrada…chato tudo isso. Desestimulante.

Mas, dirigir significa ter um pouco mais de conforto, ter liberdade e facilidade para ir aonde queremos. Agora com a sua chegada, filho, significa ainda mais: não deixar você pegar vento e chuva. Eu diria mais. Significa não depender exclusivamente de alguém para poder te levar ao médico, para tomar vacina ou te levar para a vovó. Assim também deixamos de incomodar a rotina dos outros e estamos mais precavidos para casos de emergência.

Tem mais: os passeios! A partir de agora poderemos sair, ir no mercado quando quiser fazer um jantar diferente pro papai, dar uma volta no parque, no shopping, no zoológico, encontrar as amigas da mamãe que ainda não te conhecem pessoalmente como a tia Meg, tia Bete, tia Fran, ir ao vovô… Um monte de coisas que vamos descobrir juntos!

Pensei em voltar a dirigir muitas vezes: dias de chuva, dias de sol, dias de ônibus lotado, dias com vontade de passear. Nenhuma foi suficiente. Aí veio você. E agora eu preciso, eu quero, eu voltei!

Fico pensando…quando ler esse post, já um meninão,vai ficar surpreso por descobrir que a mamãe não dirigia. Algo que farei tão automaticamente.

Tô orgulhosa de mim mesma. Fim.

Ps: Quero deixar registrado que hoje está chovendo então o trânsito está ainda pior aqui em SP. Engarrafamento, vidros embaçados, retrovisor com gotinhas de chuva que atrapalham a visão. Isso merece um bônus, não?!  Merece sim. Parabéns pra mim. Rsrsrs

6

A rotina do hospital e as amigas que ganhei

Pedro, já contei aqui que a maioria das coisas que planejei para a sua vinda não deu certo. Ainda é um pouco dolorido administrar tudo isso porque a mamãe tem a mania de criar expectativas e se alimenta de sentimentos intensos. Eu ainda preciso me conscientizar que realidade não é novela. Mas, teimo em viver de forma a criar momentos especiais porque a vida por si não é leve filho.

Foi tudo muito rápido entre o dia em que passei mal, me internei e você nasceu. De um dia para o outro mais precisamente. Dor fortíssima do lado direito da barriga. Calafrios que me faziam tremer inteira. Consulta com a obstetra. Ida para o hospital. Internação. Soro com remédio para inibir as contrações. Vários exames de imagem (até uma ressonância magnética). Noite. Durmo. Dia. Levanto para fazer xixi. Bolsa estoura. Passam-se cinco horas. Centro cirúrgico. Você nasce!

No meio da correria, o seu choro. Meu choro. Início do nosso aprendizado. Foram 90 e poucos dias de internação e não houve um só dia em que não estive ao seu lado (mentira teve um. Quando eu e o papai estávamos preparando o apartamento para você! rs). Eram jornadas de 12 horas normalmente, tirava leite a cada 3 horas, esperava para fazer o Método Canguru com você, conversava com os médicos, olhava seu prontuário, acompanhava cada passagem plantão, fazia carinho, esperava por boas notícias. Tive muito medo das intercorrências. Chorei de cansaço e de saudade.

Mas, não tiveram só coisas ruins nesse tempo filho. Conheci pessoas muito legais e casos emocionantes de luta e superação. Com humor (sim, ainda sobrou algo dele no nosso íntimo) criamos uma relação interessante entre mães e a apelidamos de “Rádio Leite”. Os encontros rápidos na sala de ordenha (é isso mesmo. Igual a da vaca. A finalidade também) eram aproveitados para desabafar, para trocar informações, para vibrar com as conquistas dos bebês.

Incrível como nessa relação não havia julgamentos. Sério, filho, acho que foi a única vez na vida que presenciei o altruísmo. Uma amparava a outra, confortava, dava dicas, transmitia força e não questionava a fragilidade. Porque lá entendia-se que há dias bons e dias ruins. ESTÁVAMOS frágeis, não SOMOS fracas. Entende a diferença?

A elas minha eterna gratidão. Carla e Leo; Pilar, Valetina e Manuela; Maiza e Valentina; Gercilene, Bruno e Caio; Sheila, Thales e Laura; Angélica, José e Antonio; Michelle e Melissa; Loraine, Mariana e Julia; Andréia e Alan; Fernanda e Miguel; Ana Paula e João Vitor; Elisabete, Marina, Laura e Estela; Adriana e Maria; Daniela e Beatriz; Vanessa e Rafael; Bruna e Julia.

2

Simpatia

Pedro, levantamos bem cedo nesta segunda-feira nublada, fria e molhada. Eu e o papai te levamos na neuropediatra. Nome complicado né? É uma médica que entende da cabeça da gente, do funcionamento dela.

No caminho até o consultório você foi distribuindo sorrisos aos que passavam e recebendo elogios de volta. Me impressiono em ver como você é simpático com todos e como todos te devolvem carinho. Mais uma vez se impressionaram com o fato de ter nascido com 25 semanas de gestação. “Nossa, só 25? Que pequenininho”; “Que apressado”.

Na sala de espera mais olhares para você e mais sorrisinhos. Chegada a nossa vez entro com você no colo, respondo algumas perguntas e te coloco na maca para a médica examinar. Tiram a sua roupinha (ai que dó tá friiiioo) e fazem testes nas suas perninhas, joelhos e pés.

A médica fala comigo sobre a sua espasticidade de membros inferiores, mas eu só consigo prestar atenção na sua cara de sapeca, no quanto você está agitado e balbuciando animadamente enquanto olha tudo ao seu redor. Você se mexe tanto que a médica precisa te aparar toda hora para que você não role da maca.

Entram algumas residentes (estudantes) e todas fazem aquele coro “Aiii que ‘bunitiiinho’”. Uma comentou da sua bochecha. Outra falou da sua esperteza. E uma delas falou “Como ele é simpático”. Todas ficaram olhando a médica terminar de te examinar e sorrindo pra você. Olhei pro seu pai e ele estava com uma cara de risinho também. Acho que estava pensando em como você está sapeca e como já faz sucesso com a mulherada! rs

Você sorri bastante. De manhã então…você é o Miss Simpatia. Você não acorda chorando. Quando te pego no berço você abre um sorrisão banguela e agita as perninhas e bracinhos. Tipo “Bom dia mamãe! Me pega daqui que eu quero começar meu dia”.

Sua alegria contagia, filho. E hoje você parecia um pontinho brilhante no meio daquela gente toda. Era eu passar com você que todo mundo mexia, comentava. Fiquei toda babona vendo como você se tornou um bebê feliz apesar do que passou na UTI. Seu sorriso alegra meu dia, sabia?! Até essa segundona nublada e fria.

Tem coisa mais valiosa que saúde e alegria de filho? Eu desconheço.

0

Sobre futilidades e aprendizados

Filho, eu estaria mentindo para você se dissesse que a sua chegada na minha vida foi tranqüila. Foi difícil para mim.  Foi difícil porque o que é desconhecido sempre nos assusta, nos deixa aflitos e alertas.

Passei um tempo me questionando se seria uma boa mãe para você, se daria conta da responsabilidade que é ajudar um ser humano a crescer. Eu tinha 25 anos quando fiquei grávida. Para algumas pessoas isso é pouca idade. Para outras a quantidade de anos não é indicador de mãe boa ou ruim.

Em partes é verdade, filho. Mas, a maternidade nos exige muitas coisas que talvez alguns anos a mais teriam nos permitido uma chegada mais tranqüila, com mais conforto para você e para mim. Uma casa própria, menos correria, menos julgamentos?!

Depois do primeiro susto (e muitas lágrimas de medo e alegria) eu quis curtir a gravidez e fiquei planejando seu chá de fraldas, a decoração do seu quarto e as lembrancinhas que daria aos que nos visitassem na maternidade. Mas, não deu tempo de fazer nada disso porque você se apressou e chegou aos seis meses de gestação! (Aliás, saiba que você nasceu no dia em que tinham preparado um chá de fraldas surpresa no meu trabalho!)

No começo eu fiquei triste por não ter conseguido vivenciar situações que muitas mulheres sonham desde menina. Coisas simples como visita dos amigos, vídeo e fotos do parto, amigos olhando o bebê no berçário, enfeite de porta de maternidade, lembrancinhas do seu nascimento etc etc etc.

No tempo em que ficamos no hospital passei centenas de vezes pelas portas dos quartos cheias de enfeites e flores e de onde ecoavam risadas alegres de quem está conhecendo uma nova vida. No começo me feria porque jamais viveria aquilo. Mas, quando te vi com a vida por um fio pude compreender que, o que antes me causava tristeza, não passava de futilidade.

Não me importava mais o chá de fraldas desde que você engordasse 30 gramas por dia.

Não me importava mais seu quarto sem decoração fofinha desde que você ficasse acordado um pouco durante o dia e me olhasse lá de dentro da incubadora.

Não me importava mais as lembrancinhas desde que você aceitasse mais leite.

E assim foi dia após dia.

Com o seu nascimento eu comecei a ver o mundo, e as pessoas, com mais ternura e encantamento. Depois de você eu aprendi a não ficar chateada por coisas idiotas e ter mais humildade para entender que ninguém tem controle total sobre a vida. Ter você me fez uma pessoa melhor, mais amável.

Obrigada, filho.

1

A primeira vez que te vi. A primeira vez que te toquei.

Só quando eu subi do centro cirúrgico pude te ver pela primeira vez, filho. Foi por foto. Foi a sua madrinha, irmã da mamãe, que me mostrou você. Não sei como ela fez, mas conseguiu entrar na UTI para poder tirar uma foto e te mostrar para a mamãe.

Confesso que olhei, mas não consegui me expressar. Fiquei muda. Olhei você e senti medo de perder você. Lembro de dizer pra sua tia “Se ele morrer nunca mais vou ser feliz”. Lembro também de entrar no banheiro e chorar abafado pra ninguém ouvir, mas por dentro eu gritava “Deus! Por que? Eu não fiz mal pra ninguém. Por que você está me fazendo passar por isso?”.

Eu gritei com Deus, filho…

Depois de dormir algumas horas e esperar o efeito da anestesia passar fui ver você. Papai me colocou na cadeira de rodas e subimos até a UTI.  Pela primeira vez entrei naquele lugar onde entraria centenas de vezes por mais de 90 dias. Era quente, tava escuro (diminuem as luzes a noite) e tinha um cheiro específico.

Dezenas de incubadoras. Centenas de aparelhos barulhentos e muitos bebezinhos como você. Com a ajuda do papai me levantei e andei até a sua incubadora. Curvada com dor nos pontos e puxando o soro me apoiei na sua “casa” e olhei.

Fiquei sem respirar quando vi você, Pedro. Tão pequeno. Fiquei chocada. Seus braços e pernas eram tão finos. Tantos fios e aparelhos ligados em você. Nas telas vários números.

Chorei. Chorei incontrolavelmente apoiada na sua incubadora. Seu pai achou que eu não fosse agüentar e tentou me levar de volta para a cadeira de rodas. Não quis. Eu só queria ficar ali e terminar de chorar. Sua fralda era uma tamanho RN cortada no meio e com fita crepe para fazer o acabamento e não deixar o algodão vazar.

Lembro de uma técnica de enfermagem (que te acompanhou até o fim) me dizer para por a mão em você. “Não!!!”…eu não consegui. Demorou filho para eu conseguir tocar em você. Tinha medo de te machucar ou de te passar alguma bactéria.

Mas, o dia chegou. Eu descansei minha mão sobre as suas costas. Senti você quentinho, pele muito fina, macio. Então, tive a noção de como você era pequeno porque a minha mão (que não é nada grande) quase cobria todo o seu tórax e abdômen.

Eu senti você. Senti o maior amor da vida, filho.

Depois fiz uma das coisas que eu mais amo até hoje: peguei na sua mãozinha! Que linda. Era tão pequena e perfeita. Fiquei olhando cada dedinho, as micro unhas, tudo. Seu pai registrou o momento. Olha só!

Imagem

0

770 gramas

Acreditem, ele nasceu com esse peso. Mais leve que um saco de açúcar, sal, feijão.

Devido aos cuidados especiais que precisou ao nascer não tivemos aquele primeiro encontro que toda mamãe e bebê tem direito. Não pude vê-lo ou pegar no colo. Só pude ouvir. Mas, sabe, diante da grave realidade na qual estávamos eu já me senti grata a Deus por ouvir o chorinho.

Quando me contaram que ele pesava apenas 770 gramas e media 29,5 cm eu me lembro de pensar que isso era muito pouco. Mas, eu só fui saber o que significava o “pouco” quando eu o vi. Então, pude entender a classificação do prontuário “bebê de muito baixo peso”. Ênfase para o muito.

As perninhas e braços eram só pele e osso. De tão leve que era não havia músculo. Aliás, o músculo do diafragma não tinha força para se mover sozinho, expandir o tórax, e assim propiciar a respiração. Isso, além da imaturidade cognitiva, foi uma das razões para a entubação de 40 dias.

Ai, como foi difícil. Nenhuma mãe (em sã consciência) sonha com o filho tão amado e desejado com aquela aparência. Não, eu não estava preocupada com a beleza do Pedro. Mas, a aparência dele escancarava para mim (e para todos que ficaram ao nosso lado) o quanto a vida dele era frágil.

Doeu. Doeu muito vê-lo crescer fora da minha barriga. A culpa, que acompanha toda mãe de prematuro, também me oprimiu por muito tempo. Era terrível olhá-lo sem poder fazer nada. Me cabia esperar, orar, pedir a Deus que deixasse o Pedro aqui. Eu me sentia responsável pela situação, e questionava os desígnios Dele, todos os dias em que permanecemos no hospital.

Os pensamentos foram mudando a medida que as explicações médicas foram me liberando da culpa. Foi essencial o apoio da minha família e dos amigos. Pois, havia dias em que eu não conseguia…vi-ver. Os 770 gramas pesavam como 770 quilos.

Por dias me carregaram para cima e para baixo, me fizeram comer, me puseram na cama, me obrigaram a sair um pouco de dentro da UTI e, principalmente, não me deixaram perder a esperança. A cada 30 gramas que o Pedro engordava (essa é a média que ganha um bebê por dia) eu fazia festa! Era motivo para ligar e mandar SMSs para os mais próximos.

Depois de um mês o Pedro completou ao primeiro QUILO (tem dia que o bebê ganha menos de 30g) e as bochechas começaram a crescer e a fazer sucesso com todo mundo da UTI. O Pedro foi um autêntico mini prematuro magrelinho bochechudo!

 Lindo!

1

25 semanas de gestação. Foi isso mesmo?

Eu sei que este talvez seja o post mais esperado por aqueles que me conhecem. O post em que eu vou contar do nascimento do Pedro, do nosso tempo de UTI, dos sentimentos, das dores, dos aprendizados. Mas o fato é que serão muitos textos sobre isso. Não tenho como falar tudo de uma vez só. Começo, então, por contar alguns detalhes.

 Pedro nasceu pequeno. Pequeno mesmo: 25 semanas de gestação, 770 gramas e 29,5 centímetros. O normal é um bebê nascer a partir da 38ª semana, de preferência com mais de 3kg e perto dos 50 cm.

 Nascer com menos de 30 semanas de gestação significa ser classificado como prematuro extremo. E o bebê sobreviver significa ser classificado como milagre! Sim, porque a maioria dos casos registrados na medicina indicam que recém-nascidos com menos de 27 semanas de gestação não são viáveis. Explicando no português claro: eles morrem.

 Aí faço uma pausa e volto ao início desse texto: Pedro nasceu com 25 semanas. Sim, meu filho é o exemplo de que as estatísticas da medicina não explicam tudo e de que há algo muito maior entre o nosso parco conhecimento e as regras da vida!

 Os médicos, enfermeiros, profissionais de várias áreas e auxiliares ficavam surpresos com o Pedro. Pelo seu tamanho, pelo seu pouco peso, mas principalmente pela sua força! Desde que nasceu, aliás antes disso ele já me pregava peças, o Pedro surpreendeu. Normalmente, um bebê tão prematuro não chora ao nascer e podem até precisar ser reanimados. A minha obstetra já tinha me alertado para que eu não ficasse (ainda mais) preocupada na hora do parto. SÓ QUE…ele chorou!

 Chorou fraquinho, bem baixinho, e suficientemente alto para fazer a mãe dele ouvir e derramar um rio de emoções. “Ele ta vivo! Ta vivo o meu filho!”, pensei. E começava ali a nossa batalha pela vida, a minha e a dele.

 Imaginem o que é antecipar 13 semanas. Contem assim: hoje é dia 14 de junho, até 14 de setembro quantas vezes você vai acordar e dormir, quantas vezes vai tomar banho, quantas refeições vai fazer? Ou melhor: de abril até hoje pense (se conseguir lembrar) quantas coisas aconteceram na sua vida.

 Pois é, esse foi o tempo que o Pedro adiantou e por conta disso foi classificado como prematuro extremo. São chamados assim os bebês nascidos antes de 30 semanas de gestação. Os riscos são vários: pulmão imaturo, apnéias, coração com formação incompleta, altas chances de ter hemorragias cerebrais, má formação incompleta em vários órgãos, retinopatia (cegueira) da prematuridade etc etc etc.

 Ele precisou de MUITOS cuidados especiais e da dedicação (amor, né gente?!) de todas aquelas técnicas de enfermagem. Ele ficou cerca de 40 dias entubado e com o que eles chamam de manipulação mínima. Mexiam o menos possível nele e tentavam criar um ambiente (incubadora) próximo a realidade do útero: quentinho, úmido, “silencioso”, escuro (se é que dá com tantas luzes e aparelhos apitando). O mais comum, e esperado, seria que o Pedro tivesse algum tipo de seqüela. E pergunta se ele tem alguma? Ne-nhu-ma.

 Resumindo, o Pedro terminou de ser gestado fora da barriga e eu fiquei muito pouco tempo grávida (uma pena. Não deu pra aproveitar como dizem). Descobri já estava com quase dois meses. Com seis meses ele nasceu…poxa, só ganhei quatro meses de mimos!! rs 

 Pedro, chega de susto. Você já gastou sua cota!

0

Ai meu coração

Eu voltei a trabalhar faz um mês mais ou menos. Mas, durante boa porta da licença maternidade eu ficava imaginando como seria voltar a trabalhar e deixar o Pedro em casa, com alguém ou numa creche.

Chegada a época de cortarmos de vez nosso cordão umbilical ficou decidido que o Pedro ficaria com a avó (sogra) o que me deixa bastante tranqüila quanto aos cuidados e ao amor dedicado a ele.

Nos primeiros dias ligava duas vezes: depois do almoço para saber se comeu bem e no final da tarde para saber se estava tudo bem. Passados alguns dias ligava uma vez só. Hoje até consigo ficar sem ligar (uau!).

A adaptação dele foi super tranqüila. Fiquei feliz com isso e respirei aliviada por saber que ele não estava sofrendo com a nossa separação (só eu! rsrs). Então, um belo dia acontece: a avó não pode ficar o neto. Ai meu Deus, e agora? Pensa, pensa, pensa.

Não posso faltar. O pai também não porque acabou de voltar de uma licença por acidente de trabalho. Pensa, pensa, pensa. E se eu levar ele pro trabalho? Ele pode ficar vendo TV quietinho e….eerrrrrrrr…..tá voltei a realidade.  E agora?

Recorri a minha mãe. Ela também trabalha, também tem seus mil afazeres. Mas, como sempre nessa vida quando a coisa fica feia a gente grita “mããããeeeee”. Ela super hiper maravilhosa, como sempre, se virou nos 30 (brega escrever isso hein?!) e ficou com o Pedro para mim.

 – Alô? Oi mãe. Está tudo bem por aí?

– Está, filha. Ele veio dormindo no carro e agora está olhando a casa.

Escuto uns grunhidos de bebê meio irritado. Penso “tudo bem ele faz isso quando cansa e quer fazer outra coisa: colo, mamar, virar para o outro lado”.

Desligo tranqüila e vou almoçar.

Meia hora depois o celular toca.

 – Oi mãe.

– Be, o Pedro não parou de chorar desde aquela hora. Já dei a mamadeira, a chupeta… O que eu faço? (leia com voz de desespero)

Na hora eu não sabia o que falar. Só ouvia os berros do Pedro. Ele esgoelava bravo, muito bravo! “Ai minha Nossa Senhora das mães que trabalham fora o que eu faço?”, pensei.

– Não sei, mãe. Põe ele no banho. Se não passar, eu vou pra casa.

Foi a primeira coisa que saiu, gente. Não foi racional. Foi um impulso. Até porque de onde eu trabalho até onde eu moro levaria NO MÍNIMO uma hora.

Fato é que funcionou. Depois de quase comer todas as unhas, arrancar os cabelos e ter uma úlcera esperando por notícias minha mãe ligou.

– Passou. Dei banho. Ele brincou e agora está dormindo.

Ai meu coração Pedro! Você está me envelhecendo antes da hora.