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Mãe da minha mãe, minha avó, a bisavó do Pedro

Nós três na minha formatura da faculdade

Nós três na minha formatura da faculdade

Faz uma semana que ela se foi: a mãe da minha mãe, minha avó, a bisavó do Pedro. Ela tinha Alzheimer, sofria com a doença já há alguns anos desde quando o grande amor da vida dela também partiu assim de repente numa manhã de janeiro.

A morte é sempre a morte. Dói embora saibamos que um dia ela vem e que devemos estar preparados. Pasmos diante da única certeza da vida, ficamos perdidos em pensamentos ora de tristeza e lamentação, ora de saudade e conformidade.

Dona Adelina deitou no sofá e não acordou mais. Quase dei uma risadinha de contentamento quando minha irmã me lembrou que, nos últimos anos, era exatamente o sofá o seu lugar predileto para deitar-se. Sarcasmo, ironia, bullying da vida morrer deitado no lugar que mais gosta?! Rá.

Vovó morreu sem sofrimento. Deitou e não acordou mais. Me conforta saber que não houve dezenas de indas e vindas de hospital. Não houve agulhas, imobilização, entubação, traqueostomia, gastrostomia, fraldas geriátricas, nem equipe médica dizendo à família que não havia mais nada a ser feito. Enfermeira por mais de 30 anos no Hospital Emílio Ribas tinha conhecimento para dizer a mim algumas vezes que nunca queria ser internada.

Aliás, a profissão é um capítulo a parte na vida da minha avó. Quando criança ela levava e buscava roupa para minha bisavó lavar e passar. Depois já mais velha trabalhou de empregada doméstica, atividade que lhe ajudou a construir (com as próprias mãos) a casa que tanto amava. Mas, o orgulho dela era dizer que trabalhou no Emílio Ribas por mais de 30 anos e que cuidou de muita gente naquelas epidemias de difteria…tinha também os soropositivos para HIV, os tuberculosos, os doentes sem diagnóstico fechado. Na parede da sala de TV dela tinha um quadrinho de agradecimento do hospital por tantos anos de serviço. Se alguém novo ía a casa dela, ela levava para mostrar o certificado.

Há uma década ela convivia com o Alzheimer. Usei convivia porque acho que seja realmente isso. Não há cura. É uma doença degenerativa que vai apagando aos poucos as memórias, a capacidade motora, a dignidade do indivíduo e a saúde da família a qual assiste a perda em vida de um dos seus.

Vimos vovó perder a vaidade essa que era uma das marcas da sua personalidade forte. Aquela mulher que adorava sapatos de salto alto, batom vermelho, perfume e vestidos se esqueceu também disso. Quando eu era menina ela sempre comentava, aprovando ou reprovando, a minha roupa quando eu chegava em sua casa. Com amor, ela me dizia “Você está tão linda, filha. Mas, essa cor é muito escura para você. Você tem que usar cores mais alegres”.

Muitas pessoas conhecem o Alzheimer pela falta de memória e/ou a repetição de frases. Vovó fazia as duas coisas. Mas tinha uma coisa boa quando ela repetia, repetia e repetia que faria uma pastelada para mim. Sabe qual é? Sinal de que essa doença horrível não conseguiu apagar da memória dela as nossas tardes em família onde filhos, tios e primos se reuniam para comer seus pastéis (massa feita por ela) de carne moída e queijo mussarela (sim, eu sei que a grafia correta não é essa, mas não consigo escrever muçarela rsrsrs)

Aliás, vovó cozinhava bem. Comida simples, caseira, cheirosa. Bife – pernil – feijoada – bacalhau – nhoque – fritada de batata – abobrinha refogada – doce de laranja, abóbora, pera – pães  – arroz doce – bolinho de chuva – bolo de fubá…huummm! Sabores que eu nunca vou esquecer. Nem isso, nem dela.

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Querida vó,

Eu vou sentir sua falta. Mas, por saber que está num lugar muito melhor do que aqui, onde não há dor ou restrição qualquer, eu me sinto bem. Acredito também que o Sr. José veio te buscar e agora, enfim, vocês podem ficar juntos de novo, passear de mãos dadas como gostavam e dançar ao som de muitos boleros.

Não se preocupe com a minha mãe, a sua Bel. Eu e minha irmã vamos cuidar dela sempre. Ela sente sua falta vó e às vezes acho que a ficha está caindo aos poucos. Contudo, fique em paz porque estamos aqui para ampará-la.

A moça que cuidava de você contou que você beijava a minha foto no porta-retrato  todos os dias. Fiquei tão emocionada com isso. Obrigada por todo amor e pelos natais da minha infância. Obrigada por ter sido boa comigo. Sou cheia de boas memórias nossas.

Até um dia.

Com amor,

Bilu. (apelido que me deu ainda criança)

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Obrigada tia T.

Filho,

quando eu era pequena, uns 3 ou 4 anos, eu tinha uma professora de quem eu gostava muito. O nome dela era Jojô. Embora ela desse atenção para todos os meus coleguinhas de sala, nós tínhamos uma ligação diferente. Eu a adorava e ela em troca também me dava uma atenção especial.

Tenho pouquíssimas lembranças dela já que era bem pequena, mas curiosamente quando lembro desses momentos sou invadida por um carinho imenso. As boas vivências que tive naquele tempo ficaram gravadas no meu inconsciente e obviamente no meu coração.

A escolinha que eu frequentava na época tinha uma metodologia bem interessante. Seria pedagogia Waldorf, Motessoriana, Construtivista ou a simplicidade de escolinha básica? Não sei precisar (será que minha mãe lembra?). Mas, me lembro dos dias que passava no parquinho fazendo bolinha de sabão de cima da casinha de madeira, das rodas de atividades, das colagens, dos preguinhos onde pendurávamos nossas mochilas e lancheiras…

Outra memória marcante é de que houve uma época de visita à casa dos amigos. Não sei a periodicidade, mas de vez enquando a turminha toda visitava a casa de um amigo. Imagine a animação: comer na casa do coleguinha, conhecer seu quarto e seus animais de estimação, seus brinquedos e todo o universo de fora da escola.

Então um dia (não me lembro do motivo ou se o motivo foi apenas o carinho) minha professora Jojô me levou para conhecer a casa dela. Ela tinha um cachorro lindo de pelos dourados e rabo comprido chamado Mel. O tapete da sala era daqueles peludinhos que estava na moda na época (preocupação com rinite é coisa recente, gente). E lembro de ter lanchado sanduíche no pão de forma cortado em forma de triângulo! Foi sem dúvida um momento de profunda diversão e carinho. Tanto que eu me lembro até hoje após quase três décadas.

Tô contando essa história filho porque há poucos dias foi a sua vez de viver uma história parecida com essa em que o amor e a dedicação profissional foram quesitos maiores do que o retorno financeiro.

A convite da sua fisio T. fomos a casa dela para uma sessão na piscina (hidroterapia) que é uma excelente opção para o seu tratamento motor. Fomos recebidos com muito carinho pela tia T. e por toda a família que estava presente quando chegamos. A princípio você ficou sério e interessado em olhar o espaço. Mas, isso foi só até o Luke aparecer. O Luke é o cachorrinho da tia T. Você ficou encantado, filho. Olhou, sorriu, gritou, passou a mão e até beliscou (vergonha kkkk).

"Mãããeee, vamos entrar!"

“Mãããeee, vamos entrar!”

Pouco depois fomos para piscina e você, que ama água, ficou eufórico para entrar.Olhe essa foto. Não preciso explicar nada. Você brincou, brincou, brincou….até que cansou e começou a ficar choroso. Te dei banho e depois você se entregou ao sono todo relaxadão no colo da tia T.

Tudo isso aconteceu em três horas, filho. Mas, foram horas em que observei tudo com muita calma para poder te contar depois. Pra te dizer que você é querido por muitos e há seis meses também pela sua tia T. que acredita na sua capacidade e põe carinho e dedicação em cada alongamento, estímulo, posição. O que ela te dá vai muito além de uma simples terapia e, por isso talvez, você goste tanto quando a vê na porta de casa.

Por fim, queria lhe dizer que não é necessário/obrigatório/vital ter amor em tudo na nossa vida. A gente consegue levar os dias sem ele, mas não sem ficar um pouco mal humorado, ranzinza com coisas pequenas e um sem graça solitário. Você vai ter tempo para experimentar isso e eu espero que sua escolha seja sempre o de deixar a vida leve.

Pedro, aproveite todo o amor que recebe. Brinque com o Luke como eu brinquei com o Mel. Curta a sua tia T. como eu curti a minha Jojô.

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Tia T.

Obrigada por todo carinho e empenho que tem com o Pedro. Eu sou realmente grata por todas as evoluções dele e por você acreditar e trabalhar os potenciais dele respeitando o tempo e as restrições motoras. Parabéns pelo profissionalismo e respeito, eu sei que não somos apenas cifrões!

Beijos,

Bia e Pedro.

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Bicicleta, filet mignon e paquera no mercado

Olha esse céu!

Olha esse céu!

Neste final de semana nós andamos de bicicleta, Pedro. Você adorou e a sua estreia no mundo das bikes foi acompanhada pelo papai, irmão e por mim. Eu imaginei que você ficaria quietinho sentado no meu colo (era um triciclo), mas que nada: quis ficar de pé segurando no ferrinho da frente e quando ultrapassávamos alguém você acompanhava com a cabeça e sorria para quem ficava para trás. Um lindo e simpático mini ciclista!

Foi bom sentir o sol e o ventinho no rosto não foi? O dia estava lindíssimo e quente. Céu azul com poucas nuvens bem branquinhas que atraíram muitas pessoas para o parque. Enquanto andávamos até o local onde alugamos as bikes você olhava para todas as direções e depois para mim e seu pai com o maior sorriso no rosto como se dissesse “vocês viram que legal?”.  Também ouvimos vários gritinhos e risadinhas. Você se divertiu tanto, filho.

Depois ainda passamos no shopping para jantar e eu, que achava que você ficaria irritado por já ter passado do seu horário de jantar e por estar suado, me surpreendi com você mais uma vez. Resmungou um pouquinho só até a comida chegar. Depois comeu comigo pedacinhos de filet mignon, arroz e polenta frita! Nhammmm….!

Passamos rapidinho no mercado só para pegar algumas coisas que estavam faltando e na fila do caixa você se encantou com uma menininha. Ela estava séria, mas você olhava para ela e sorria mostrando os seus 4 dentes. Ela permaneceu séria, embora não tenha desviado o olhar desde que te viu.  Você? Você continuou sorrindo e começou a balbuciar e bater com as mãozinhas no carrinho.

E eu pensei: “Mulheres!”. Kkkkkkkkkk

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A importância de registrar os momentos

Me lembro de mim ainda bem pequena olhando as fotos da família. Era um ritual que eu gostava de repetir constantemente e sempre que possível pedia para alguém pegar a sacola cheia de álbuns que ficava guardada na parte alta de um guarda-roupa do meu quarto. OU seja, a salvo de crianças curiosas.

Não sei bem porque gostava de ver fotos minhas de quando era um bebê se nem fazia tanto tempo assim que eu havia deixado de ser um. Kkkkkkkkk Mas, o fato intrigante é que eu achava interessante saber como tinham acontecido tais e tais momentos. Tem um álbum do batizado da minha irmã, por exemplo. Quem me conhece sabe que ela é seis anos mais velha que eu e, sendo a minha mãe uma católica praticante, eu não fui ao batizado dela que aconteceu pouco tempo após o nascimento! Mas, o registro está lá e eu pude ver minha avó novinha de tudo em um elegante vestido, vi o churrascão que rolou no quintal depois da cerimônia e constatei que ele estava lo-ta-do de amigos dos meus pais.

Me dava (ainda dá) uma ótima sensação rever os registros das viagens para a praia em que eu era uma menininha de maio da Hello Kitty torrada de sol, lambuzada de sorvete e no maior estilo “farofeira”. Tem foto minha e da minha irmã brincando de casinha, de escolinha com as bonecas, de apresentações de dança, do nosso único cachorro, dos natais em família, das formaturas (desde o ensino infantil)… Quantas boas lembranças da minha infância estão eternizadas em fotografias.

Já adolescente eu me divertia em ver meu pai com calça boca de sino, camisa aberta, sandália de tiras de couro e os cabelos cumpridos!! Minha mãe com cinturinha de pilão e brincos coloridos de plástico era um pitelzinho, gente. Tá na cara porque ela conquistou o japa charmoso de Ray-ban! Kkkkkkk

Mas, tentando manter o foco desse post depois de me perder um pouco em todas essas linhas….

Acho que a fotografia eterniza os momentos para que a gente possa ver com outros olhos depois. O tempo, esse senhor de destinos, trata de aplicar uma espécie de filtro que embaça as imagens e assim deixa menos visível aquilo que não era tão bom. Não é?

É tão comum olharmos para as fotos e sentirmos aquele calorzinho no coração, né? Seria vontade de reviver? É como se no inspirar do ar entrasse pelas nossas narinas a atmosfera daquele momento. O cérebro, em suas infinitas sinapses neuronais, avisa que tem algo diferente acontecendo. Sobe um nó na garganta, um piscar de olhos mais rápido acontece, um sorriso nos lábios se forma…e lá vem: a gente se emociona!

Foi o que aconteceu ontem a noite quando sem querer achamos uns vídeos do Pedro com poucos meses de idade. Gente, e não é verdade que eu tive um recém-nascido? (tóim) Poxa vida fiquei tão emocionada de ver o Pedro tão bebezinho. Eu já não me lembrava mais, juro! Não lembrava do quanto ele era pequenininho, das expressões específicas da idade, das roupinhas que ele já perdeu há tempos, da casa quase móveis…

Novamente tive a mesma sensação a qual relatei lá no início do texto de quando pegava as fotos de um passado até recente e me interessava por rever os detalhes. Me emocionei mesmo. Me dei conta do quanto é importante registrar os momentos porque com o tempo, e nem precisa ser tanto assim, a gente se esquece das coisas, dos detalhes, da graça de cada instante, fase, estágio.

Preciso registrar a infância do Pedro, e a nossa família, para que no futuro ele possa ver como foram esses dias…e rir das nossas roupas, cabelos, carro, claro!

dentes

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Pedro compridão

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Quando saíamos hoje de casa encontrei minha vizinha que tem gêmeas e com quem troco muita figurinha sobre a prematuridade e todos os seus “ais”. Nos cumprimentamos e eu conversei  carinhosamente com a V. que estava no colo dela com carinha de poucos amigos (uma raridade visto que é super meiga e engraçadinha).

E foi nesse breve espaço de tempo, na simplicidade de um dia comum, que eu vi e ouvi algo que me deixou contente. Minha vizinha olhou para o Pedro no bebê conforto, fez uma expressão com as sobrancelhas levantadas e soltou “Nossa, Pedro!”.

Só isso: “Nossa, Pedro!”.

Eu olhei de volta para ele e vi o que causou “espanto” nela. Pedro está grande. Magro é verdade. Mas, comprido. Os pezinhos já ficam para fora do bebê conforto e nesse momento quando olhei para ele vi um menino compridão. Olhei de volta para a V. e para ele de novo.

Vocês conseguem entender o que aconteceu? Pela primeira vez, em um ano e três meses, eu não achei o Pedro muito menor do que uma outra criança da idade dele! Enquanto olhava para ele e para a V., que é poucos meses mais velha que ele, eu experimentei a sensação de equivalência. (?)

Talvez essa mania de comparar as medidas do Pedro com as de outras crianças seja só besteira da minha cabeça. Contudo, acho importante estar sempre atenta a sinais de que o crescimento pode estar fora do padrão. Tanto por conta da saúde, quanto para que no futuro ele não seja alvo de brincadeiras maldosas do tipo “vara pau”, “lá vai o anão”….e demais maldades infantis.

Foi preciso o acaso de um dia comum para eu acordar! Nenhuma das (mil) vezes em que alguém me disse que ele não era tão pequeno assim me soou tão realista quanto à expressão “Nossa, Pedro!” e aquelas sobrancelhas levantadas.

O curto diálogo conseguiu abrir meus olhos para o fato de que é hora de relaxar um pouco, afrouxar as mãos da gola da preocupação que me aprisiona desde o momento em que caí na real do que significava ter um bebê aos seis meses de gestação.

Será isso? Finalmente as complicações da prematuridade, aquelas que não nos permitiram ter um começo legal, estão ficando pelo caminho? Acho que sim.

É como se as complicações fossem roupas que ficaram apertadas com o nosso crescimento e agora já não nos servem mais. É tempo de renovar. É tempo de doar.

Crédito foto: Google.