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Repensando atitudes

Eu sempre achei que seria uma mãe daquelas linha dura. Aquela que não dá moleza para birras, que ensina a juntar as bagunças e que deixa comer sobremesa só depois de limpar o prato.

Ok. O Pedro ainda é pequeno e ainda não preciso adestrá-lo ensiná-lo certas coisas (não dá pra pular a fase das birras?), mas um episódio semana passada me fez ficar pensando em que tipo de mãe eu sou/serei para o Pedro.

No ônibus um menino chorava muito sentido para mãe dizendo que não tinha ganhado nenhum presente no aniversário. A mãe respondeu dizendo que isso era o resultado por ele não ter obedecido nem a ela, nem ao pai, nem a professora. Na hora fiquei com dó porque aniversário é uma data esperada o ano todo quando somos crianças. É o acontecimento do ano, aliás. É o nosso dia especial.

Então pensei qual seria a minha atitude perante o Pedro. Eu agiria da mesma maneira? Eu abria exceção por conta do aniversário e repreenderia de outra maneira? Não sei. Mas, a situação me fez refletir sobre o impacto das minhas escolhas e atitudes para a formação dele.

E a reflexão vai muito além de escolher dar ou não presente. O ato de dar um presente contém, na minha visão, uma trama de significados bem complexa. O que representa dar e receber presente? Bem, tem muitos significados ao meu ver. Positivos: demonstração de carinho, lembrança, afeto, recompensa (por conquistas) em certos casos. Negativos: compensação emocional, falta de consciência de valor ($).

O que eu estou passando para o meu filho quando perco a paciência e grito? O que estou ensinando ao meu filho quando respondo grosseiramente para alguém? O que estou transmitindo ao meu filho quando acordo mal humorada e não dou bom dia com um sorriso no rosto? O que estou passando como certo quando ele chora “pedindo ajuda/atenção” e eu deixo para depois porque estou ocupada com outra tarefa?

Sim, porque nessa fase eles são como esponjas. Aprendemos a partir daquilo que vemos os outros a nossa volta fazendo. Imitamos. Repetimos as atitudes, as falas. O que esperar de uma criança que convive com um pai (avô, padrasto, tio, irmão) cavalheiro, que divide tarefas em casa, que trata com respeito as pessoas? O que esperar da menina que convive com um exemplo de homem que só ofende a mãe, que a xinga, a destrata e a vê como mero objeto da casa?

Ok. Tudo que generaliza é ruim. Mas pensem: qual ambiente é, pelo menos na maioria das vezes, melhor para criar um serzinho que está formando personalidade, caráter, visão de mundo? É na primeira infância que a criança forma o comportamento afetivo/emotivo que levará para a vida adulta (leia mais sobre o assunto aqui ). Passamos a agir da forma como fomos ensinados ou, melhor dizendo, da maneira como vivenciamos as situações na infância.

Se você foi uma criança que teve pais presentes, carinhosos e que lhe estimularam a defender sua opinião, é bem provável que quando adulto continue a agir da mesma maneira com o próximo. Pois, isso está no seu inconsciente. No “DNA” do seu comportamento afetivo/emotivo. É o que você aprendeu. Mas, o contrário também pode acontecer. Se você foi criado para ser independente, se não estimulado a falar dos sentimentos, se foi tolhido quando expressava suas descobertas infantis…a introspecção fará parte da sua rotina. Bem, não preciso me estender sobre a parte de convívios com indivíduos violentos…

Para a nossa alegria: tudo tem exceção! Conheço pessoas com uma infância terrível que poderiam ter se tornado seres desprezíveis…só que não se tornaram. Também conheço gente que tinha tudo considerado como essencial e virou um delinquente. Mas, to falando da maioria. Da média. E do comum: crianças que são influenciadas pelo ambiente em que vivem.

Difícil pensar sobre comportamento, não? Ainda mais quando precisamos analisar a nós mesmos para identificar o que queremos repetir e o que não queremos passar para frente. É preciso rever conceitos, e talvez revisitar um passado dolorido. Mexer em algumas feridas.

Melhor assim do que deixar o barco correr sem rumo. Já pensou perceber que o final do curso do rio termina numa queda d’água mortal?! Prefiro remar antes!

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