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Sobre aniversários, os de idade e os de incubadora

Outro dia seguia para trabalho e ouvi um menininho comentar com a mãe. “1, 2, 3, 4, 5…..100. Eu vou viver atéééé os 100 anos e depois vou morrer”, disse ele. Sorri sem olhar para os dois e pensei como é linda a inocência e a sinceridade das crianças. É puro. É um pensar e falar.

A conversa sobre quanto tempo viver me fez pensar sobre o meu próprio aniversário que está logo aí. Eu durante esses quase 27 anos sempre gostei de comemorar a data. É um dia em que eu sinto minha energia diferente. É um dia em que pessoas muito queridas me dizem, ou fazem, coisas de tamanha delicadeza para me mostrar que o tempo não é capaz de desfazer amizades verdadeiras e que elas gostam de mim exatamente do jeito que eu sou. E eu? Eu fico sorrindo querendo viver 100 anos.

Fiquei pensando: será que mesmo depois de tanto tempo minha mãe ainda se emociona quando lembra do meu nascimento? Sempre gostei de ouvi-la contando sobre o dia do meu nascimento, de como foi a primeira vez que ela me viu de “olhinhos piscando rápido e o cabelo todo espetado”.

É tão emocionante o nascimento. É um milagre indescritível e de fato sublime. O baby está na barriguinha da mommy e de repente PLUFT! Ar nos pulmões, claridade nos olhos, frio na pele, sensação de fome. É vida começando. A lembrança do Pedro saindo da minha barriga é tão forte! Aquele choro anunciando a vida. Aquelas lágrimas que não consegui segurar que escorreram quente pra minha nuca. As palavras do pai do Pedro no meu ouvido “Nasceu, Amor. Nosso filho nasceu. Ele é piquitico”.

Tudo isso (nada prolixa!) para contar que o aniversário desse ano tem comemoração dupla porque, enquanto eu completo 27 anos, o Pedro completa um ano fora da incubadora. Há um ano cheguei na UTI pela manhã e levei o maior susto vendo um bercinho aquecido no lugar onde ficava a incubadora dele. O primeiro pensamento foi já imaginando o pior, retrocesso…Mas, nada! Meu menino tinha finalmente saído da incubadora após 2 meses e 5 dias de nascimento.

Lembro de ter ficado paralisada em frente ao bercinho com as mãos no rosto, incrédula olhando para ele. Um misto de euforia e medo.

As auxiliares de enfermagem vieram conversar comigo só que eu não conseguia prestar atenção direito no que elas estavam falando. Só voltei a realidade quando elas disseram “Agora, o acesso a ele é livre apesar de todo o cuidado que ainda permanece. Você já pode trocar as fraldas e dar banho todos os dias”. “Ai meu coração!!”, eu pensei.

Nesse dia (22/12/2012) eu e o Pedro começamos a nossa relação de toque. Até então só nos víamos pelo “vidro” da incubadora e ficávamos em contato nas horas do Canguru. Foi incrível poder tocá-lo; pegar no colo; cuidar; sentir o cheirinho e pouco a pouco começar uma rotina próxima do normal entre mãe e filho. Nesse mesmo dia troquei a primeira fralda dele tremendo de medo. Ele tinha pouco mais de 2kg!

Por isso, e tudo mais, parabéns para nós Pedro! Você é sempre o meu melhor presente.

Olhem que tamanico de gente! Isso porque já tinha crescido. Ainda nem podia usar roupinha.

Olhem que tamanico de gente! Isso porque já tinha crescido. Ainda nem podia usar roupinha.

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Olhos, os seus lindos olhos

olhos

Como sabem o tempo normal de uma gestação é de 38-40 semanas, tempo necessário para a formação e maturidade completa dos órgãos. Dependendo da quantidade de semanas que o bebê nasce ele terá maior ou menor chance de vida por conta das complicações advindas da imaturidade de seus órgãos. Em alguns casos a condição é incompatível com a vida. Mas hoje quero me ater à questão dos olhos.

Como o prematuro é um bebê que nasce antes do tempo, e portanto antes de ter todos os órgãos formados, é preciso considerar a formação incompleta dos olhos. Por isso, durante o tempo em que permaneceu na UTI o Pedro realizou o exame de Fundo de Olho a cada 15 dias. É um exame bastante aflitivo para quem vê, mas extremamente necessário para identificar precocemente uma doença chamada Retinopatia da Prematuridade que pode deixar o bebê cego. (Veja aqui um ótimo material da Fiocruz sobre as várias questões do prematuro. A parte sobre retinopatia está na página 111).

Trata-se de uma doença diretamente relacionada ao crescimento incorreto dos vasos sanguíneos que alimentam a retina (responsável pela formação de imagens/ transforma estímulo luminoso em nervoso). Em alguns casos mais graves, além do crescimento incorreto dos vasos, podem ocorrer sangramentos e descolamento da retina ocasionando a perda parcial ou completa da visão. Por isso, o acompanhamento com um oftalmologista, de preferência especialista em prematuros, deve ser contínuo até a formação completa dos nervos. No link acima tem um dado que diz “Estima-se que das 100.000 crianças cegas na América Latina, 24.000 são cegas em decorrência da Retinopatia da Prematuridade”.

Os bebês que acompanhei durante o tempo de UTI não tiveram nenhum problema. Bastou tempo para que os nervos pudessem terminar de se formar. Mas, me lembro de um único caso em que o diagnóstico precoce garantiu que o bebezinho não perdesse a visão. Os pais puderam optar pelo tratamento (fotocoagulação a laser ou crioterapia) e paralisaram o avanço da doença. Talvez um dia ele precise de óculos o que não é nada demais para quem poderia perder a visão, certo?

Aos seis meses, e já em casa conosco, o Pedro recebeu alta do oftalmo. Graças a Deus a retina dele, e os nervos ópticos, se formaram perfeitamente e o fantasma da Retinopatia da Prematuridade foi embora nos deixando bastante aliviados. Entretanto, na última consulta o médico pediu retorno quando o Pedro completasse 1 ano para refazer a medição de grau que acusou hipermetropia. Segundo o médico, isso é comum entre as crianças e pode ser revertido com o crescimento natural dos olhos. Prematuros também tem tendência a ter outros problemas como estrabismo e diferença de grau entre um olho e outro.

Mas, os cuidados devem ser com todas as crianças. É bom levar os pequenos ao oftalmologista com certa regularidade. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) 19 milhões de crianças são deficientes visuais. Dessas, 12 milhões possuem deficiência relacionada a erros refrativos que podem ser diagnosticados e corrigidos. Mas, como no Brasil não temos a cultura de levá-los ao oftalmologista como fazemos com o pediatra, por exemplo, o problema só costuma ser descoberto na escola.

O exame para recém-nascidos mais conhecido, e difundido pelas campanhas federais, ainda é o Teste do Pezinho que é importantíssimo mas também pode ser enquadrado no que eu chamo de “desigualdade de oportunidades médicas”. Esse nome eu inventei depois de perceber (eu já tinha percebi isso há muito tempo na verdade) que no Brasil existe um apartheid na saúde que nos divide em duas classes: ‘aqueles que tem acesso a saúde (SUS)’  e os que tem ‘acesso a saúde de verdade’. Me explico.

No Brasil os programas de triagem e tratamento são muito heterogêneos dependendo da região do país, estado e até cidade em que você vive. E se você tem dinheiro para pagar convênio e médico particular as coisas mudam ainda mais. Quando tive o Pedro pude escolher se queria o Teste do Pezinho simples (gratuito a todos), um intermediário ou o super. Óbvio a lista de doenças metabólicas investigadas aumentava de acordo com o preço que você queria/poderia pagar. Me digam se isso não é um crime contra as mães e crianças que não podem pagar pelo serviço? No site da própria Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia está escrito:

“O teste é obrigatório por lei e sua coleta é garantida e está disponível em todos os municípios brasileiros, sendo gratuito no Sistema Único de Saúde. Em todo o Brasil, é feita pelo menos a triagem do hipotireoidismo congênito e da fenilcetonúriaUma parte dos estados faz também a pesquisa de hemoglobinopatias (como a anemia falciforme) e alguns realizam também a pesquisa da fibrose cística. É possível triar cerca de 40 doenças com o Teste do Pezinho, mas geralmente os exames mais completos são realizados em laboratórios privados

Ou seja…se seu filho nascer no Norte ele tem acesso a uma coisa, no Nordeste a outra, no Sudeste outra. Aliás, fiquei chocada também quando descobri que as vacinas que dão nos postos de saúde são diferentes das de clínicas particulares. E não é apenas o fator de dar ou não reação. As vacinas são diferentes no espectro do que imunizam.

Também pude escolher entre o tipo de Exame do Olhinho. As opções seguiam os mesmo moldes do Teste do Pezinho. Quanto mais $, mais minucioso era o exame.

 Juro não ter nenhum laço afetivo/familiar com ninguém da área da oftalmologia. Kkkkkk Esse post foi escrito por livre e espontânea vontade de avisar pais e mães sobre a importância da saúde visual!!

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Sobre preconceito, maternidade e idade

O primeiro post do blog foi, de certa forma, sobre preconceito. Falei sobre o que vivenciei quando me descobri grávida e ainda não era casada. Mas, sabe quanto mais eu vivo mais percebo que somos TODOS cheios de preconceitos. Uns mais, outros menos. Porém, sempre temos algum (ou alguns).

Você pode pensar que não tem e bater no peito se dizendo o ser mais democrático, moderninho, pró-cadaumvivecomoquer! Mas, vamos falar sério agora. Não dá para ser totalmente sem preconceito. Uma hora ou outra a gente faz um julgamento seja sobre a roupa, o gosto musical, as atitudes pessoais/profissionais, modo de se portar… Julgamos e temos opinião. Às vezes a gente não verbaliza, mas o preconceito tá ali.

Bem, tudo isso para contar sobre uma reflexão minha durante o período em que permaneci no hospital com o Pedro na UTI (papo para muitos outros posts). Quem me conhece sabe da minha cara de menina. Eu não aparento ter meus 26 anos. Adivinhem qual foi a pergunta que mais respondi durante a internação do Pedro? Sim, foi: “quantos anos você tem?”.

Uma, duas, três…um monte de gente! No começo respondia meio envergonhada. Depois já sabia o que vinha após a interjeição “desculpa a curiosidade…” e já respondia antes do final da pergunta. Com o tempo aquilo foi me enchendo um pouco.

Comentava com o meu marido que quando andávamos pelos corredores as pessoas cochichavam “olha lá a mãe adolescente e o cara que engravidou a menina” “coitada, tão novinha”. No fim, a gente ria disso.

Até que um dia, dos 90 e tantos, eu fiquei olhando todas aquelas mães na UTI. Tinha mãe de tudo quanto é jeito, altura, tamanho, cor, classe social e …idade. Além de mim, novinha, tinham mães de mais de 40 anos.

Tinha uma igual a minha mãe…não fisicamente, mas no jeito de falar, vestir etc. Lembro até hoje: mãe de gêmeas,  marido mais jovem, método de fertilização in-vitro. Ficava pensando em como era pra ela estar ali. Como tinha sido a gravidez: de risco ou tranqüila? E a família? E os amigos? E por que esperaram tanto?

Então, me toquei. Enquanto eu me irritava por me acharem nova demais para ter filho, lá estava eu fazendo um juízo de valor. Me enchendo de pensamentos e suposições. Afinal…

Se somos jovens é porque somos jovens demais para ter filho.

Se temos mais de 35 anos, somos velhas para ter filho.

Se somos solteiras, coitadinhas!

Se somos casadas e o pai não vê o parto, que pai insensível.

Prenconceito: estamos fazendo isso errado!

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Ah! Os seus olhos…que lindos olhos

Pedro, deixa eu te contar sobre um dia incrível que tivemos. Faz um tempo já e olha a contradição: foi no hospital.

Apesar de termos muitos momentos importantes na nossa relação de mãe e filho têm alguns que são mais marcantes, sabe? Hoje estou me referindo a primeira vez que te vi de olhos abertos a me fitar lá de dentro da incubadora. Era um domingo nublado. Você ainda não enxergava (retina incompleta), tampouco sabia que eu era sua mãe, mas foi emocionante. Foi a primeira vez que  falei de verdade com você. Cantei também.

No tempo da barriga eu achava muito estranho falar com você apesar de todo mundo me aconselhar. Quer saber do mais maluco? Eu conversava com você em pensamento nesse tempo. Veja só: eu que achava estranho conversar com a barriga, conversava em pensamento porque achava menos doido. Vai entender a cabeça de uma grávida, não?! kkkk

Mas, voltando…fiquei admirada de ver seus olhos abertos. Lembro de pensar na perfeição da natureza e agradecer a Deus por ter a oportunidade de vivenciar aquele instante. “Oi Pedro. Eu sou sua mãe. Que olhos lindos você tem”. Com o tempo entendi que não eram os seus olhos em si (embora ache lindo as duas jabuticabinhas levemente puxadinhas) era o seu olhar.

Que olhar mais profundo você tem. Curioso. Atento. Com a amamentação essa minha paixão aumentou ainda mais. Te dar o peito e ver sua carinha de satisfação me deixava super contente. Você que já amamentou, lembra-se dessa expressão?! Incrível, né?!

O legal é que gravei esse momento e ele ficou eternizado. Agora posso mostrar. Na época gravei para o seu pai que estava trabalhando e para aqueles que sempre oravam e torciam por você. Assim pude mostrar a sua garra. Sempre que revejo as imagens da época do hospital tenho certeza de estar assistindo um vídeo real sobre milagre. Ali diante dos meus olhos estava você. A cada dia me mostrando que a sua vida não dependia de mim, nem somente dos médicos e de dinheiro, mas da vontade de uma força muito muito maior.

Depois desse dia eu e papai nunca mais fomos embora antes de você dormir. Não deixávamos você enquanto estivesse com os olhinhos abertos. Fiz o possível para você não se sentir sozinho. Te amo.

PS: O vídeo tem imagens (óbvio) de bebê prematuro na UTI, gente. Não é fofo. Ele tinha oito dias de vida. Mas, você vai achar lindo se conseguir enxergar a beleza da vida! Espero que após ver o vídeo você tenha mais fé, mais esperança e entenda que é possível vencer mesmo quando tudo indica o contrário. O Pedro está aí para provar isso. Bom fim de semana a todos!

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Os primeiros dias em casa e a fofurice do dia

Eu leio muita coisa durante o dia e o tema “primeiros dias do bebê em casa” é bem comum. Então fiquei pensando em como foi comigo e com o Pedro. Engraçado, mas NENHUM relato dizia: “Ah, foi super fácil”, “Tirei de letra”, “Sabia exatamente o que fazer”, “Não chorei junto com o meu bebê”, “Nunca me senti sozinha com meu filho recém-nascido”. E sabe por que não lemos isso? Porque o começo é muito difícil mesmo.

A gente nunca foi mãe e “de repente” estamos ali com aquele pacotinho dependendo da gente para tudo. É falta de entrosamento, é excesso de responsabilidade, é preocupação em ser a melhor mãe que podemos ser. Nesse momento a gente ainda não sabe que

Comigo e com o Pedro teve a questão do hospital. Estava exausta, física e emocionalmente, dos 90 dias de internação dele quando o dia da alta chegou. Fiquei explodindo de felicidade e morrendo de medo de levá-lo para casa…tudo ao mesmo tempo. Lembro de ter confirmado a notícia (já pré-avisada) por telefone, ter saído correndo para o quarto, pulado na cama e dito para o marido “Vamos buscar nosso bebê!!!!!”.

Avisei a família que finalmente o levaríamos para casa e fiquei em estado de agitação permanente. Acho que deve ser essa a sensação de uma mulher que consegue ter um parto em tempo normal e vai para a maternidade sabendo que o bebê estará em seus braços em questão de horas. Enfim, cheguei no hospital a mil e estava tão afoita que troquei a roupinha dele toda atrapalhada. Parecia que era a primeira vez que fazia aquilo. Então, chegou o momento de levá-lo para fora da porta do hospital. De passar por aqueles corredores, elevadores e saguão agora com ele no colo. Na saída chamei a recepcionista que me dava o crachá todos os dias para ela o conhecer.

Lembro de entrar no carro, colocá-lo na cadeirinha e me dar conta de como ele ainda era pequeno e frágil mesmo com três meses de vida. Era muita cadeirinha para pouco Pedro. Eu precisava até colocar a mão nas costas dele para o cinto, apertado no máximo, não ficar folgado demais e também para não deixar o pescoço dele “dobrado” e dificultar a respiração.

Lembro de ter pensado “Sério mesmo que vão me deixar sair com ele? As pessoas sabem que eu não faço ideia de como cuidar de um bebê?”. No caminho para casa redescobri como a cidade é barulhenta e poluída. Pensava “Nossa esse ar horroroso está entrando no pulmão dele. Bem no pulmão dele que só respirou ar de hospital e que é broncodisplásico”.

Fui o caminho todo tensa. Pensando se ia dar conta, rezando para ele não passar mal e ter que voltar correndo para a emergência. Chegamos em casa onde minha mãe já nos aguardava com o almoço. Pusemos ele na sala ainda na cadeirinha. E depois tem um ‘gap’ na minha memória. Não sei o que fiz com ele depois naquele dia.

Mas, me recordo de ver como o berço era enooorme para ele. De levantar umas…VÁRIAS vezes durante a noite para ver se estava tudo bem, se estava coberto, para amamentar, para verificar a respiração. Aliás, a checagem da respiração era uma ação compulsiva minha. Verificava milhares de vezes por dia. Parava de lavar a louça na metade só para ver a barriguinha subindo e descendo. Quando não podia parar pedia para o marido ver se estava bem e sem-pre perguntava se ele tinha checado a respiração. Típico trauma de quem é mãe de filho que ficou na UTI com respiração mecânica (40 dias de entubaçao, uma semana no cepap, dias a perder de vista com oxigênio na incubadora e depois em máscara).

Até que um belo dia depois de pensar (e chorar) 54892 de vezes que não vai conseguir, que não vai dar conta, que você é pior mãe do mundo, acontece uma certa mágica no infinito que nos empresta força e sabedoria e as coisas simplesmente fluem. Bruxaria, feitiçaria, magia, mandinga….sei lá. Um dia nos damos conta de que passou aquela fase nada cor de rosa sem contato social de arrancar os cabelos inicial.

O que antes amedrontava não assusta mais. O que antes era difícil se tornou corriqueiro. E o melhor: percebemos que nosso filho nos adora mesmo quando não sabemos o que ou como fazer. Até porque ‘toda’ mãe é perfeita. A sua não é? E ela não sabe o que fazer o tempo inteiro, né?! Então.

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Fofurice do dia

Hoje o Pedro acordou às 4h30 da madrugada querendo mamar. Preparei a mamadeira, dei para ele. E caí na cama de novo. Como o berço dele ainda está no meu quarto comecei a ouvir aquele ronc-ronc de nariz entupido. Pensei “aiiii vou ter q levantar de novo. Está tão frio fora do edredom!”.

Ronc-ronc………ronc-ronc……..ronc-ronc……ronc-ronc……..

HUNF! Levantei e fui buscar o soro no quarto dele. Quando voltei ele já estava de olhinho fechado quase dormindo. Dei uma mexidinha nele para ele não acordar assustado com o soro entrando pela narina. Ele abre o olhinho me vê com o vidrinho na mão e fica esperando.

Tchuf em uma narina. Tchuf na outra.

Olho para ele para me certificar se está tudo bem. Ele fecha os olhinhos e sorri como se estivesse falando “Ufa, obrigado. Tava ruim para respirar. Agora guarda o soro e vamos dormir, mamãe!”.

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O tempo pára, as coisas congelam e parece que só existe você no planeta

Sabe quando você passa por uma situação de muito estresse? Já passaram por isso? Um assalto, alguém passando mal…essas coisas que nos encharcam de adrenalina até o dedão do pé?! É muito maluca a sensação de tempo parado e de você não conseguir enxergar nada ao seu redor além daquela situação de pânico. Parece que só existe você no planeta. Eu consigo ouvir até a minha respiração como naquelas cenas de filme de terror.

Hoje estava lendo um blog com relatos de quando tinha sido a primeira vez que elas haviam se sentido mãe. Aquela velha história de se descobrir grávida, mas não se sentir mãe: não tem barriga, não tem movimento, às vezes não tem nem o enjôo. Daí tinha um de uma mãe que contou ter se sentido mãe quando o filhinho de apenas 9 meses saiu da cirurgia de reconstrução do intestino e a abraçou fortemente até adormecer. Caramba! Ai meu coração.

Então me lembrei da sensação de ver um filho saindo do centro cirúrgico. Ah, para quem não sabe o Pedro fez uma cirurgia (Hérnia Inguinal Bilateral) enquanto esteve no hospital. Dizem que é coisa bem simples e comum em meninos prematuros. De qualquer forma, era meu filho e imaginem o que é ver aquele bebezico de menos de 3 kg ser levado para a faca, entubação e anestesia (o que me dava mais medo).

Quando a cirurgia terminou me chamaram lá na UTI onde eu estava ao lado do bercinho aguardando ele voltar. Estranhei muito porque não tinham feito isso com a outra mãe. Gelei. Mil coisas passaram pela minha cabeça…até morte. Fui correndo porque precisava acabar logo com aquele suplício. O elevador não chegava nunca. Subi de escada. Cheguei colocando os bofes pra fora.

Na porta do centro cirúrgico tinha uma TV onde aparecia o status de cada cirurgia. Vi que a do Pedro já tinha terminado. Avisei na recepção que o médico tinha me chamado para conversar. Passa um, dois, cinco, dez minutos. NADA. “Deus, me ajuda. Preciso saber do Pedro. Me ajuda! Me acalma. Me dê forças para ouvir o que eu preciso. Eu não vou agüentar…”.

De repente a porta se abre e lá vem um bebezinho todo enrolado num berço com rodinhas e com uma equipe médica em volta. Olho e vejo o Pedro com os olhinhos pouco abertos. “Ai filho que bom. Olha a mamãe está aqui”. E finalmente choro. Deixo as lágrimas descerem quentes pelo meu rosto gelado pelo ar condicionado do lugar. Encosto na parede e junto as mãos em oração para agradecer a Deus. Respiro fundo e abro os olhos novamente.

Já consigo ver as pessoas. Minhas mãos já não estão mais como cubos de gelo. Minha barriga parou de doer e eu, já impaciente, consigo pensar “Po***, cadê o médico?”. Depois que passa a tensão a gente volta ao normal e até xinga o médico mentalmente. rsrsrsrs

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A rotina do hospital e as amigas que ganhei

Pedro, já contei aqui que a maioria das coisas que planejei para a sua vinda não deu certo. Ainda é um pouco dolorido administrar tudo isso porque a mamãe tem a mania de criar expectativas e se alimenta de sentimentos intensos. Eu ainda preciso me conscientizar que realidade não é novela. Mas, teimo em viver de forma a criar momentos especiais porque a vida por si não é leve filho.

Foi tudo muito rápido entre o dia em que passei mal, me internei e você nasceu. De um dia para o outro mais precisamente. Dor fortíssima do lado direito da barriga. Calafrios que me faziam tremer inteira. Consulta com a obstetra. Ida para o hospital. Internação. Soro com remédio para inibir as contrações. Vários exames de imagem (até uma ressonância magnética). Noite. Durmo. Dia. Levanto para fazer xixi. Bolsa estoura. Passam-se cinco horas. Centro cirúrgico. Você nasce!

No meio da correria, o seu choro. Meu choro. Início do nosso aprendizado. Foram 90 e poucos dias de internação e não houve um só dia em que não estive ao seu lado (mentira teve um. Quando eu e o papai estávamos preparando o apartamento para você! rs). Eram jornadas de 12 horas normalmente, tirava leite a cada 3 horas, esperava para fazer o Método Canguru com você, conversava com os médicos, olhava seu prontuário, acompanhava cada passagem plantão, fazia carinho, esperava por boas notícias. Tive muito medo das intercorrências. Chorei de cansaço e de saudade.

Mas, não tiveram só coisas ruins nesse tempo filho. Conheci pessoas muito legais e casos emocionantes de luta e superação. Com humor (sim, ainda sobrou algo dele no nosso íntimo) criamos uma relação interessante entre mães e a apelidamos de “Rádio Leite”. Os encontros rápidos na sala de ordenha (é isso mesmo. Igual a da vaca. A finalidade também) eram aproveitados para desabafar, para trocar informações, para vibrar com as conquistas dos bebês.

Incrível como nessa relação não havia julgamentos. Sério, filho, acho que foi a única vez na vida que presenciei o altruísmo. Uma amparava a outra, confortava, dava dicas, transmitia força e não questionava a fragilidade. Porque lá entendia-se que há dias bons e dias ruins. ESTÁVAMOS frágeis, não SOMOS fracas. Entende a diferença?

A elas minha eterna gratidão. Carla e Leo; Pilar, Valetina e Manuela; Maiza e Valentina; Gercilene, Bruno e Caio; Sheila, Thales e Laura; Angélica, José e Antonio; Michelle e Melissa; Loraine, Mariana e Julia; Andréia e Alan; Fernanda e Miguel; Ana Paula e João Vitor; Elisabete, Marina, Laura e Estela; Adriana e Maria; Daniela e Beatriz; Vanessa e Rafael; Bruna e Julia.